13/06/2016

A REVELAÇÃO

Grande reunião, grande público. Moço simpático, muito afetivo, que vejo como psicoterapeuta, fala. Considerável o interesse das pessoas. Ele diz que as cenas da vida são como uma sequência de fotogramas. Cada situação, um fotograma. Todos ligados em película de curta ou longa metragem. Única narrativa. Costumamos, em nossas observações, cortar, quebrando as imagens. A gente se absorve pelos conteúdos de cada fotograma, como se os quadradinhos fossem independentes. Assim nos afastamos do contexto, perdendo-se o sentido global dos fatos, praticamente a vivência cotidiana na sua lógica própria. Ela se torna superficial, tendenciosa face ao sentido das situações. Nossa história pessoal, fatores emocionais, hereditários, paradigmas... Terminada a palestra o moço foi abraçado efusivamente. Ver a vida como algo fluindo de modo sequencial, se explicando pelo conjunto das cenas parecia inédita revelação, pelo menos para mim. Contentamento geral.
Na retirada do palestrante, muitos cumprimentos, ele acompanhado na saída. Percebi que se dirigia, determinado, para um outro local. Por certo se tratava de momento em que, com um grupo menor, o palestrante iria se aprofundar no assunto, talvez trabalho assistencial mais dirigido às necessidades de alguns. Foi quando, ao cruzar uma porta, eu contribuí para impedir que parte da multidão adentrasse o outro recinto. Ele  agradeceu pelo que senti, me vendo como um colaborador. Os solicitados a não atravessar a “barreira” não demonstraram insatisfação.
Algumas reflexões, após acordar, ao mesmo tempo em que auxiliei a querida Maria nas tarefas caseiras. Aliás, fora do meu costume, não fui contraditório ao comando dela. Maneira de fazer, providenciar e ajudar, quando estou ligado em meus projetos. Em silêncio, lembranças do sonho à tona. Vamos lá às ideias. Lembro meu saudoso amigo e mestre, G.W.Moraes ao dizer que “o acaso é o caso do caso”. Nossas alegrias, tristezas e surpresas são permeadas por situações lógicas obscuras. Lembro a lei de sincronicidade (Jung). Por vezes, fácil reconhecer como um fato se liga a outro. Mas a visão de causalidade ou estrutural de contexto é verdadeiro desafio. A sincronicidade não liga a isso. Se, porém, a gente imagina que tudo esteja interligado, até numa sequência racional, pode tornar-se mais factível o ato de pensar e esperar. Questão psicológica e intuitiva. Sei que o perigo é o conformismo e o fatalismo. Ambos, fantasmas a camuflar águas mais profundas da psique. Idolatria, vaidade, no vapt-vupt das relações entre humanos, somam orgulho, egocentrismo e espírito messiânico... A gente se considerar rei da cocada ou plasmar o outro de herói. Humildade faz bem, mesmo depois de uma palestra tão nutriente para o ego como a do sonho. Ainda pensando na onírica madrugada, dá vontade de observar que nosso costume é o de destacar “cenas” do cotidiano como únicas, isoladas. Daí os “ismos” pessimismo e otimismo, facas de um gume. Tudo se relaciona, tudo é um só. Somos norteados, a bússola subjacente é a totalidade. Sentido pleno. Claro que tem a ver com nossa trajetória existencial. Penso na literatura, quando surge a visão de perspectiva, ao percebermos a relação sequencial lógica e psicológica dos fotogramas. Nada deixa de somar, uma situação puxa outra já vivida, pensada, imaginada.  Entre elas, “formas pensamento” que acabam por se concretizar. Depois não adianta se queixar quando tais formas traem expectativas. Um otimismo, como bom colesterol, ajuda.     


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