Grande reunião, grande público.
Moço simpático, muito afetivo, que vejo como psicoterapeuta, fala. Considerável
o interesse das pessoas. Ele diz que as cenas da vida são como uma sequência de
fotogramas. Cada situação, um fotograma. Todos ligados em película de curta ou
longa metragem. Única narrativa. Costumamos, em nossas observações, cortar, quebrando
as imagens. A gente se absorve pelos conteúdos de cada fotograma, como se os quadradinhos
fossem independentes. Assim nos afastamos do contexto, perdendo-se o sentido global
dos fatos, praticamente a vivência cotidiana na sua lógica própria. Ela se torna
superficial, tendenciosa face ao sentido das situações. Nossa história pessoal,
fatores emocionais, hereditários, paradigmas... Terminada a palestra o moço foi
abraçado efusivamente. Ver a vida como algo fluindo de modo sequencial, se explicando
pelo conjunto das cenas parecia inédita revelação, pelo menos para mim. Contentamento
geral.
Na retirada do palestrante, muitos cumprimentos,
ele acompanhado na saída. Percebi que se dirigia, determinado, para um outro local.
Por certo se tratava de momento em que, com um grupo menor, o palestrante iria
se aprofundar no assunto, talvez trabalho assistencial mais dirigido às necessidades
de alguns. Foi quando, ao cruzar uma porta, eu contribuí para impedir que parte
da multidão adentrasse o outro recinto. Ele agradeceu pelo que senti, me vendo como um colaborador.
Os solicitados a não atravessar a “barreira” não demonstraram insatisfação.
Algumas reflexões, após acordar, ao
mesmo tempo em que auxiliei a querida Maria nas tarefas caseiras. Aliás, fora
do meu costume, não fui contraditório ao comando dela. Maneira de fazer, providenciar
e ajudar, quando estou ligado em meus projetos. Em silêncio, lembranças do
sonho à tona. Vamos lá às ideias. Lembro meu saudoso amigo e mestre, G.W.Moraes
ao dizer que “o acaso é o caso do caso”. Nossas alegrias, tristezas e surpresas
são permeadas por situações lógicas obscuras. Lembro a lei de sincronicidade
(Jung). Por vezes, fácil reconhecer como um fato se liga a outro. Mas a visão de
causalidade ou estrutural de contexto é verdadeiro desafio. A sincronicidade
não liga a isso. Se, porém, a gente imagina que tudo esteja interligado, até
numa sequência racional, pode tornar-se mais factível o ato de pensar e
esperar. Questão psicológica e intuitiva. Sei que o perigo é o conformismo e o
fatalismo. Ambos, fantasmas a camuflar águas mais profundas da psique. Idolatria,
vaidade, no vapt-vupt das relações entre humanos, somam orgulho, egocentrismo e
espírito messiânico... A gente se considerar rei da cocada ou plasmar o outro de
herói. Humildade faz bem, mesmo depois de uma palestra tão nutriente para o ego
como a do sonho. Ainda pensando na onírica madrugada, dá vontade de observar
que nosso costume é o de destacar “cenas” do cotidiano como únicas, isoladas.
Daí os “ismos” pessimismo e otimismo, facas de um gume. Tudo se relaciona, tudo
é um só. Somos norteados, a bússola subjacente é a totalidade. Sentido pleno. Claro
que tem a ver com nossa trajetória existencial. Penso na literatura, quando
surge a visão de perspectiva, ao percebermos a relação sequencial lógica e psicológica
dos fotogramas. Nada deixa de somar, uma situação puxa outra já vivida,
pensada, imaginada. Entre elas, “formas
pensamento” que acabam por se concretizar. Depois não adianta se queixar quando
tais formas traem expectativas. Um otimismo, como bom colesterol, ajuda.
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