03/11/2014

UM RECADO



Não adianta você dizer que não acredita em Deus no papel “daqueles céticos que acham que religião é coisa de gente boba”. Lembro um intelectual e artista, homem de teatro, com notável contribuição nessa área, me dizer que “não cria” mas admirava os que têm fé na transcendência (não usou bem este termo) – Alfredo Mesquita. O outro intelectual de que falo, e que admiro, suscita minha reflexão, além de demonstrar interesse no estudo teológico. Direi o nome dele no final, por crédito e respeito. Ele, filósofo, cita Marx, Nietzsche e Freud, “cavaleiros do ateísmo contemporâneo”... Há quem com uma mente alternante, sobre a qual nada sabia, nem queria saber, fica observando uma suposta natureza também alternante. Sei que a gente interpreta da forma que quer, mas tais cavaleiros, numa superficial análise, me ajudaram a pensar no que o autor da matéria (em que me baseio) é esclarecedor. Ateus: figuras num fundo desmistificador do que parece bobagem na prática religiosa. Religião e ciência, ciência e religião. Até cientistas chegam a declarar que ambas podem dar as mãos. Kardec expõe, o que virou religião, como ciência. Claro que irritou e irrita os céticos cientificistas. Aprendi com G.W.G. Moraes que o ismo é uma degeneração da teoria. Teoria é algo a ser comprovado? O problema estaria na especialização do conhecimento. Ou radicalização, cujo modelo dos outros não se encaixa no próprio. Mãos a obra, cientistas e agnósticos. “Ser um alienado explorado por picaretas (do espiritualismo, expressão minha)”... O autor usa a palavra “espirituais”, cujo sentido é mais amplo. Allan Kardec denunciou falsos médiuns e os mistificadores dos fenômenos metapsíquicos que ele estudava. Falar em “falta de sentido da vida e o abandono cósmico” é para quem não acredita em reencarnação. Segundo os considerados “sonháticos”, a vida funcionaria como escola de aperfeiçoamento. “A dor e a luz salvarão”, expressão que ouvi, desde a adolescência, no meio espírita. A palavra reencarnação costuma ser combatida com unhas e dentes, numa leitura superficial da existência. O cético só acredita em si. A razão das diferenças individuais, pessoas que vivem próximas e não se dão bem (sem um motivo aparente), deformações físicas e morais, atribuídas a genes. Aprofundamento aqui é coisa não só de fé mas de curioso bom senso. Deus, acusado de “pai ideal”, é mais do que tábua de salvação. Generalizar “masturbação espiritual” é uma feia escorregada. Que isso acontece, acontece, como a corrupção dos homens públicos. Qualquer um pode reconhecer que há gente séria, ética e moralmente, na política. Narcisismo, personalismo, o que representa uma relação de você para com você. Aqui, mais ou menos as palavras lidas, cuja essência acredito ser a mesma do autor da matéria publicada na Folha de S. Paulo. Perdoem-me o suspense... Logo saberão (se já não sabem) de quem se trata. E insisto: eu o admiro. Vamos a este trecho: “Na busca espiritual narcísica não existe qualquer transcendência, só a imanência entediante de um ‘eu mesmo’ deslumbrado consigo mesmo”.  Em seguida ele estabelece ponte com quem não consegue criar vínculos duradouros, referindo-se aos jovens de hoje. De fato, o articulista não é um arrogante cético, mais se enquadra na imagem de agnóstico crítico (pleonasmo?). Se não me engano, ele se vê assim. Estaria em busca do sentido do universo e da vida, querendo compreender isto que chamam de “energia”, sem dar muita atenção para pregadores atrás de adeptos? Lamenta, como eu, a falta de maior humildade. Ah, me desculpem por não dizer que esta tangencial análise tem por alvo quem leio sempre: Luiz Felipe Pondé. Nas entrevistas televisivas, ou mesmo no Jornal da Cultura, ele irrompe como um complascente. Paradoxal, pelo nome do texto: “Sonhos complacentes” (Folha, 27/10/ 2014).

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