Não adianta você dizer que não
acredita em Deus no papel “daqueles céticos que acham que religião é coisa de
gente boba”. Lembro um intelectual e artista, homem de teatro, com notável
contribuição nessa área, me dizer que “não cria” mas admirava os que têm fé na
transcendência (não usou bem este termo) – Alfredo Mesquita. O outro
intelectual de que falo, e que admiro, suscita minha reflexão, além de
demonstrar interesse no estudo teológico. Direi o nome dele no final, por crédito
e respeito. Ele, filósofo, cita Marx, Nietzsche e Freud, “cavaleiros do ateísmo
contemporâneo”... Há quem com uma mente alternante, sobre a qual nada sabia,
nem queria saber, fica observando uma suposta natureza também alternante. Sei
que a gente interpreta da forma que quer, mas tais cavaleiros, numa superficial
análise, me ajudaram a pensar no que o autor da matéria (em que me baseio) é
esclarecedor. Ateus: figuras num fundo desmistificador do que parece bobagem na
prática religiosa. Religião e ciência, ciência e religião. Até cientistas
chegam a declarar que ambas podem dar as mãos. Kardec expõe, o que virou religião,
como ciência. Claro que irritou e irrita os céticos cientificistas. Aprendi com
G.W.G. Moraes que o ismo é uma degeneração da teoria. Teoria é algo a ser
comprovado? O problema estaria na especialização do conhecimento. Ou
radicalização, cujo modelo dos outros não se encaixa no próprio. Mãos a obra,
cientistas e agnósticos. “Ser um alienado explorado por picaretas (do
espiritualismo, expressão minha)”... O autor usa a palavra “espirituais”, cujo
sentido é mais amplo. Allan Kardec denunciou falsos médiuns e os mistificadores
dos fenômenos metapsíquicos que ele estudava. Falar em “falta de sentido da
vida e o abandono cósmico” é para quem não acredita em reencarnação. Segundo os
considerados “sonháticos”, a vida funcionaria como escola de aperfeiçoamento.
“A dor e a luz salvarão”, expressão que ouvi, desde a adolescência, no meio espírita.
A palavra reencarnação costuma ser combatida com unhas e dentes, numa leitura
superficial da existência. O cético só acredita em si. A razão das diferenças
individuais, pessoas que vivem próximas e não se dão bem (sem um motivo
aparente), deformações físicas e morais, atribuídas a genes. Aprofundamento
aqui é coisa não só de fé mas de curioso bom senso. Deus, acusado de “pai
ideal”, é mais do que tábua de salvação. Generalizar “masturbação espiritual” é
uma feia escorregada. Que isso acontece, acontece, como a corrupção dos homens
públicos. Qualquer um pode reconhecer que há gente séria, ética e moralmente,
na política. Narcisismo, personalismo, o que representa uma relação de você
para com você. Aqui, mais ou menos as palavras lidas, cuja essência acredito
ser a mesma do autor da matéria publicada na Folha de S. Paulo. Perdoem-me o
suspense... Logo saberão (se já não sabem) de quem se trata. E insisto: eu o
admiro. Vamos a este trecho: “Na busca espiritual narcísica não existe qualquer
transcendência, só a imanência entediante de um ‘eu mesmo’ deslumbrado consigo
mesmo”. Em seguida ele estabelece ponte
com quem não consegue criar vínculos duradouros, referindo-se aos jovens de
hoje. De fato, o articulista não é um arrogante cético, mais se enquadra na
imagem de agnóstico crítico (pleonasmo?). Se não me engano, ele se vê assim.
Estaria em busca do sentido do universo e da vida, querendo compreender isto
que chamam de “energia”, sem dar muita atenção para pregadores atrás de adeptos?
Lamenta, como eu, a falta de maior humildade. Ah, me desculpem por não dizer
que esta tangencial análise tem por alvo quem leio sempre: Luiz Felipe Pondé. Nas
entrevistas televisivas, ou mesmo no Jornal da Cultura, ele irrompe como um
complascente. Paradoxal, pelo nome do texto: “Sonhos complacentes” (Folha,
27/10/ 2014).
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