Se não é a Maria, dificilmente eu me
alimento de um prato novo. Meus hábitos, minha vertigem. Ao buscar segurança
imitamos os quimicamente iguais. Quantas rotas a percorrer? Quantos destinos a
cumprir? Como disse Ferreira Gullar, viver só não basta, daí a necessidade da
arte. Ela pode dar um peso real à existência humana. Para os que não “estão”
artistas sobra o bagaço da fruta. O sentido da palavra artista é extenso, tendo
a ver com criatividade em inúmeras áreas de ação, por exemplo, da culinária às
artes visuais.
Ouso pensar em dois planos distintos. Um,
é a transcendência. O tempo da vida não distingue o antes do depois, assim como
morte é presença viva. Mortos são invisíveis, mas não ausentes.
Fruta, a existência de sete décadas, em
sete minutos (cálculo de um matemático). De qualquer modo, como dizia o
matemático, saudoso irmão, a vida é bela. Uma dádiva, não obstante os
percalços. Ver a estada na Terra como fonte de lições é algo digerível. Essa ótica
exige boa disposição de espírito.
Velhos desesperançosos, jovens
fatigados, pela falta de ocupação e curiosidade. Um pouco de olhar
retrospectivo mostra que as coisas acontecem a seu tempo. Circunstâncias
favoráveis para a apreensão de novos significados estão por trás de um corpo
translúcido.
A natureza agênere (não corporal) é uma
realidade a oferecer alegria, consolo, esperança. Só precisamos de uma boa
abertura e intenção menor como cético biscateiro de problemas. Há verdades fora
de nós. Porém a dúvida metódica que nos leva a testá-las faz parte de um mínimo
de lucidez. Não se submeter ao que é falível, sujeito a enganos e autoenganos.
Precaver-se contra banalidades da moral. Princípios ajudam sem recorrer a
assentimentos doutrinários. Cuidado com profetas ou messias. Instruções que surgem
a cada passo devem passar pelo filtro da consciência. O que serve para uso de todos,
sem a escolha de predestinados, exige prudência, desinteresse e discernimento.
Desconfiar de receitas, dogmas, rituais, artigos de fé. Evidente que não se
deve pagar pela fé recebida. Investigue: a alma, ou princípio inteligente; o
envoltório fluídico da alma; o corpo, ou envoltório material. Imagine o fato de
se acreditar na vida depois da morte e na sobrevivência do espírito. Nem é
necessário ter uma religião, nomeada e cultuada. Na afirmação de princípios, o
medo tende a se distanciar, mesquinharia perde terreno. A vida como um fio,
rompe-se quando não esperamos. Necessário preparar-se como sugeriu o filósofo
Sócrates. Anjos e demônios, nós, todos os viventes. Estamos em todos os cantos.
Algo simples de se aceitar: Toda falta terá punição e todo ato meritório possui
retorno saudável. No passamento, ninguém se torna outro a não ser como dono de
louros e fardos de mazelas, boas e más qualidades. Não existe “salto lógico”,
apenas se muda de frequência – espaço e tempo diferentes. Chega a ser propiciado
retorno à Terra para reparos e novas chances evolutivas. Caminhamos na direção
da sabedoria e beleza infinitas. Suicídio voluntário e involuntário, atos inconsequentes
contra o próprio destino. Do “outro lado” pode-se experimentar a sensação
festiva de liberdade – não ser mais velho nem enfermo. Em seguida, o tom se
tornaria mais sóbrio e preocupado? Eis a dinâmica da vida nos planos terreno e
espiritual.
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