23/08/2018

O DESEJO



Sentimos e criamos uma realidade que nos parece coesa, coerente. Mas ela é disparatada: inclui inverdades, utopias, desastres, o ilícito, coisas insanas ou inesperadas. Faz parte da experiência política, entra no cotidiano das trocas sociais. A essência do homem é uma falta, aquilo que não se possui. Desejo é o desejo do outro. É o que o outro tem mas que eu não quero. Somos repetitivos, já que cometemos sempre os mesmos erros. Na linguagem comum, o desejo não se inscreve totalmente. Não se imaginar senhor do próprio destino, o que implica compreender a dinâmica do estado desejante. Se achar que os sentidos fazem sentido, o caminho é outro. A palavra fica com o inconsciente, senhor da linguagem. Como explicitar a verdade do desejo? Qual a raiz do que se deseja? Discursos se apropriam das aspirações humanas. Dizem o que se quer desejar. Na política, a fala de quem desloca desejos para os desejos de outrem. Esquecer do próprio querer é entregar-se a modos pré-fabricados (anúncios publicitários, como dia disto ou  daquilo; metas, objetivos, funções). É quando se esquece o que está mais enraizado, e atende melhor às nossas necessidades. Mecanismos de atitudes e comportamentos já estão aí na praça do mercado. Não permanecer à margem do que é mais importante e essencial.

********************

18/08/2018



AGIR OU INTUIR

A realidade não é o que se me apresenta aos sentidos. Tudo problemático e falho. O que chamo de objetivo, claro, evidente, é o que me impuseram como real. Posso, ao enfrentar a angústia, subtrair algo daí. O que chamam de “devaneio” do artista é o que corresponde a esse estado. Faz parte de idealizações imaginativas no ato tido como criador, processo associativo de figuras, cores e formas. Linhas que, muitas vezes, o autor nem sabe como as colocou na composição. Uma superfície ou mancha chega a ter papel decisivo no equilíbrio dos elementos enquadrados. Para o artista, a realidade não passa de uma coisa una. Por que não a duplicar para que o entendimento aconteça? Talvez a gente se perca aí... Na posição do artista, mais real é a família ou o trabalho? A acumulação de bens ou o desprezo por posses? A união cartorial ou o simples acasalamento? Parecer isto ou aquilo? O ato ajuda a lidar com essa angústia. O artista costuma ter o impulso da intuição ao encontrar a porta aberta. Agir ou intuir com o real? Literatura e poesia, um caminho. É quando se poderá atingir a raiz dos próprios desejos. Na atividade literária ou artística, a expressão utilizada não exige ser compreendida. O surrealismo, por exemplo, age como forma de vida. Entra no cotidiano, na ética, na estética, na filosofia, na ciência. Sentimos a dificuldade de dizer o que queremos e de ouvir o que não queremos.

(Miniatura dos meus cajados. Obra exposta no Centro de Convenções Victor Brecheret, Atibaia. Mostra do Olho Latino.)



https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhI_81IXE3ZHWZhyphenhyphenTiFwOkWZmz0wYRGp8upGoC17aNyuVS7g-cDvd2wDJDLn0F67zHsBFSOBo0Zb5E8AoAhlowZ7OV35CqhOX4pyVVdODWDlKxDmciRnV145H3fGao5uwqfpw5267GoFuY/s1600/cajadoscaixa.jpg

AGIR OU INTUIR

A realidade não é o que se me apresenta aos sentidos. Tudo problemático e falho. O que chamo de objetivo, claro, evidente, é o que me impuseram como real. Posso, ao enfrentar a angústia, subtrair algo daí. O que chamam de “devaneio” do artista é o que corresponde a esse estado. Faz parte de idealizações imaginativas no ato tido como criador, processo associativo de figuras, cores e formas. Linhas que, muitas vezes, o autor nem sabe como as colocou na composição. Uma superfície ou mancha chega a ter papel decisivo no equilíbrio dos elementos enquadrados. Para o artista, a realidade não passa de uma coisa una. Por que não a duplicar para que o entendimento aconteça? Talvez a gente se perca aí... Na posição do artista, mais real é a família ou o trabalho? A acumulação de bens ou o desprezo por posses? A união cartorial ou o simples acasalamento? Parecer isto ou aquilo? O ato ajuda a lidar com essa angústia. O artista costuma ter o impulso da intuição ao encontrar a porta aberta. Agir ou intuir com o real? Literatura e poesia, um caminho. É quando se poderá atingir a raiz dos próprios desejos. Na atividade literária ou artística, a expressão utilizada não exige ser compreendida. O surrealismo, por exemplo, age como forma de vida. Entra no cotidiano, na ética, na estética, na filosofia, na ciência. Sentimos a dificuldade de dizer o que queremos e de ouvir o que não queremos.

(Miniatura dos meus cajados. Obra exposta no Centro de Convenções Victor Brecheret, Atibaia. Mostra do Olho Latino.)


25/07/2018

MAIS FORTE DO QUE O ÓDIO


Nas famílias, por mais felizes que sejam ressentimentos recalcados podem emergir quando menos se espera. Amantes eternos chegam a virar inimigos eternos?  Sobre o sentido de “eternidade”, diz o filósofo pré-socrático Heráclito:  “o mundo era desde sempre, é e será fogo sempre vivo que se acende a intervalos e a intervalos se apaga”. Tempo de namoro, casamento, filhos... Num futuro próximo ou distante pode ocorrer a disputa pela custódia dos filhos. Sendo contra ou pelo medo do pai, por ofender de alguma forma a mãe, acontece de os filhos não quererem partilhar a existência com ele. O pai não se conforma. Acusa a mãe de manipulações. A separação tende a se tornar litigiosa. É quando o caldo se derrama, embora possa ser recolhido. A família do marido o defende; o mesmo acontece com os parentes da esposa. Qualquer argumento parece válido nessa hora. Quem ganha ou perde, área judicial. Rejeitado pela mulher e pelos filhos, o pai se transforma em lobo. É o início da sua desintegração social. O ódio pela ex-mulher pode suplantar o amor pelos filhos. Nessa situação de brutalidade instintiva chega a aparecer nua e crua a condição humana. Como renunciar às próprias vaidades e frustrações? Uma liberdade radical e mortal existe na selva, onde “o homem é o lobo do homem”. Necessário para que haja civilização, em suma, que o homem renuncie a ganhos imediatos em nome de um bem maior: a paz e a segurança possíveis para todos. Sem esse sacrifício não teríamos saído das cavernas. Estaríamos distantes de uma cultura cívica exigível pela experiência cooperativa e solidária. Sabemos como é difícil abrir mão dos interesses imediatos e das mínimas conveniências momentâneas. O sentimento do “nós” (reciprocidade) e o diálogo (sem estrito confronto) existem para todos – família, políticos, cidadãos, como vivência irremediável. Trata-se realmente de um sacrifício? E aqui nem se falou no perdoar e no amor ao próximo como a si mesmo. Nada é mais forte do que o amor.

*****************

21/07/2018

MANJAR E IPANSOTERA



Chamar certas obras de livros é dizer muito pouco. Às vezes são projetos de dezenas de anos. Caso do Manjar Branco no Asfalto que chamo de romance mas não passa de obra ambiciosa. Recentemente devo editar centenas de tuítes com o nome Ipansotera. Os tuítes ou hipotiposes (outro nome) andam há anos pela internet. Continuo produzindo textos avulsos, fragmentos, ao sabor de momentos mesclados num só fluxo. Os livros crescem, passagens são excluídas, enquanto outras se incluem. Sem enredo e cronologia, a ordem correta é fora de ordem. No caso das hipotiposes cada edição é um livro diferente. Quais páginas incluir e em que ordem? Pensando também nos meus Cadernos do Beiral, em que há textos manuscritos a decifrar, caligrafia em caixa alta, dificuldades se repetem. Que tal páginas avulsas em recipientes adequados, o leitor montando os próprios conjuntos? Livro inacabado? Mandálico, mutante, a critério de quem lê. Obra que renasce e se refaz, segundo o gosto do interlocutor. Questões autopropostas, um diário íntimo, reflexões filosóficas, prosa poética, orientação existencial, consciência fragmentada em palavras e imagens . Não há definições para esgotar o definido. De raspão, diria que ipansotera tem a ver com alegria e tristeza da vida; hipotipose sugere rascunho, esboço.

******************  

19/07/2018

A PERCEPÇÃO PRIMORDIAL



A Programática de G.W.G. Moraes buscou em obras da antiguidade clássica (biblioteca digna desse nome), noções que dão destaque à dicotomia para a compreensão da multiplicidade do real. Entram aqui Ocidente e Oriente. Platão aceitava a prevalência da dualidade, também enfatizada por Nietzsche e Merleau-Ponty. A vida caminha através de paradoxos, opostos interativos, pensamento de Jung que postulava sobre a existência de dois polos que se defrontam. A interrelação entre eles, embora antagonistas, contribui para o equilíbrio psíquico. Como não há brilho inteligente sem sombras, não basta esta dualidade. Picasso demonstra, da Renascensa ao Cubismo, como o elemento “três” é importante. Um tripé é melhor base para manter a máquina na vertical. “Dois” para sustentação exigem apoio que também provém de um motor em movimento. Então, resta discernir na escolha das unidades, sob pena de desvario e insegurança. Firmeza para baixo e largueza de sentimentos e ideias. A Programática aceitaria o elemento “três"? Caso contrário, ou se acerta ou erra. A dúvida, naturalmente, é algo menos autoritário. Por outro lado, no sistema de Moraes a intuição mandálica tinha sensível destaque. Compensaria a radical dicotomia. Pergunto:  como ficam as graduações de luz e sombra, de superfícies com relação a linhas e pontos? Risco de se cair num maniqueísmo estético, como se sujeito e objeto, eu e outro existissem separados. A própria clivagem do certo e do errado é discutível na medida em que exalta a percepção habitual, objetiva e cristalizada. Em Leonardo da Vinci a percepção é mais aberta e mais ampla. Confiança maior nas sombras do que nas linhas de contorno, para o entendimento. Conteúdos, relacionados a formas, ideias, teorias.  A natureza em si – independentemente da maneira como nossos olhos a concebem – não possui limites precisos. Pontos e linhas são constructos matemáticos, sem presença física. Algo imaginário, desprovido de matéria e substância, existe como projeção. Não ocupa espaço. Luz e sombra são o que melhor representa a forma e o volume dos objetos e seres. O humano entra aqui. A ver com isso o sfumato, técnica que, em Leonardo, representa a realidade com mais precisão. A Mona Lisa, bom exemplo. Nas relações interpessoais penso na Gestalt, comparando-a à percepção que não se perde em nomes, medidas e detalhes, preferindo o mais  totalizante. Ninguém se conhece, e muito menos sabemos tudo sobre pessoas animais e coisas. Do geral se chega ao particular. Leonardo, ao borrar os limites entre arte e ciência, realidade e ficção, experiência e mistério, pretendia chegar ao essencial do visível.

****************  

21/06/2018

LUZ E SOMBRA



O nome que se dá a uma obra...  Qual a relação com o consciente do autor? Muitas vezes só existem sombras, quando há luz. Diferentes tipos de luz geram diferentes tipos de sombras. O título de um livro meu, publicado em agosto de 2007, pela editora Garatuja (Atibaia, SP) – Ecos e Sombras. Cheguei a pesquisar sobre  razões  do nome dado. Sombras, em Jung possui aspectos negativos e positivos. “O homem inconsciente, precisamente a sombra, não é composto apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas também de um certo número de boas qualidades, instintos normais, reações apropriadas, percepções realistas, impulsos criadores, etc.” Sobre motivos mais ou menos conscientes ao atribuir o nome do que escrevi, Ecos surge como expediente de abertura na modelagem de pensamentos. . . Aqui já me sinto à luz da importante obra de Walter Isaacson, Leonardo Da Vinci. Os efeitos de luz e sombra nos desenhos e pinturas do artista são objeto na interação entre arte e ciência. No que ele observava e praticava, sombras eram o segredo para modelar objetos tridimensionais. O humano, a natureza e o divino consistiam em importante tripé, base de sua teoria. Linhas são conceitos surrados aprendidos ao longo da vida. Estão no plano circunstancial, aí nos prendendo. Têm a ver com o costume de estar sempre dando nome às coisas. Não às coisas em si mesmas, mas nas aparências. O dito de Nietzsche de que não há fatos, só versões, me vem a propósito. Linhas, muito menos nos servem para alcançar a transcendência.  Ecos e sombras, luz e sombras. É com a luz que o espírito se fortalece no tridimensional. Só na polaridade binária chega-se a perder a dimensão mais estética do sentimento e da arte. Sombras reproduzidas de forma adequada são de suma relevância para que se alcance  outras perspectivas fora do trivial. Ao depender de linhas, espíritos em corpos sólidos e opacos ficam mal definidos. Essências espirituais podem ser melhor percebidas através de sombras. Assim surge uma ruptura com julgamento e práticas comuns. Insisto que linhas possuem nomes, nos afastando de conteúdos mais essenciais.  Para o entendimento, ou relações de autenticidade, face a contornos temos as sombras. Linhas são explicativas. Na ótica do cineasta Fellini, explicar é uma forma de fascismo. Linhas não participam de maneira mais intensa de conteúdos a serem explorados. Não adentram os fenômenos, daí a observação partir para o que se explica. Vira instrumento de poder, não de compreensão. Sombras possuem maior penetração no que se deseja entender e ainda revelam sutilezas. Observar conteúdos através de linhas, o mesmo que ter um véu ou um painel entre a coisa e o que representa ou significa. Tem mais a ver com a memória, parte artificial da inteligência. Com o tempo resta a essa parte da mente selecionar até o exagero o que “deseja” guardar. Num certo sentido, ainda bem, já que não pretendemos ser um baú de quinquilharias. Pena que tanta coisa boa também fica degradada. Sombras não admitem limites precisos. Pouco servem a quem pretende conservar e aumentar o próprio poder. Através de linhas imaginamos saber o que não sabemos. Linhas pouco auxiliam na ampliação da consciência num sentido mais transcendental. Nem para compreender evidências existenciais. Um espírito, cujá luz reflete vários ângulos, produz sombras de forma inteligente a distinguir importantes caracteres. Almas carregam forças unificadoras como guias. Tons de sombras e suas graduações como nas diversas categorias de espíritos. No meu livro, a variedade de sombras denota a variedade  de influências recebidas dos pensadores consultados. Influxo muitas vezes no acaso do caso. Há o que é primário, derivado, e resulta da luz ambiente;  ocorre o tingido  sutilmente pelo que se reflete (ecos), o composto (fontes de luz); o criado pela luz solar ou da alvorada, o filtrado por transparências e muitas outras variações. Existe um ponto em que a luz bate, sendo refletida de volta à fonte. Mistura com a sombra original... Ambas se juntam de alguma forma. A análise da cultura alimenta a literatura, assim como a literatura alimenta a análise da cultura.       

*******************