08/02/2019

A CASA É O CORPO





    


A Av. N. Sra. do Sion, com a casa do protagonista, não dá as caras no “Manjar”. Se a casa falasse, com a própria alma e as cores dos donos e das pessoas da família, nomes e idades, incluindo visitantes e correliginários, surgiria algo atemporal e simbólico. A ver com a experiência de quem mora e passa na delimitação geográfica da entrada para a Pedra Grande. A obra está embebida da cadência efusiva de espírito doméstico preservacionista. Há aí também um espiritualismo que não aceita a matéria como matéria. Algo quântico, pouco definível. Mantém-se encapsulado o que é utilitário, funcional e tende a descambar para o individualismo violento dos tempos. A avenida era de terra, hoje de asfalto, via crúcis de chagas pela velocidade progressista. Melancolia e expansividade. Morte e atropelamento de pessoas e animais (esquilos, gatos, cavalos). Residências novas, mentes e cubos lisos de concreto aparente, com câmeras registradoras no entorno. A mais próxima da casa do “Manjar”, logo ao terminar, gente morando, foi assaltada. Além do “Manjar”, outros livros largam na espera de lançamentos. A demora, sina do autor, pela pegada literária. Temas a serem trabalhados de forma ficcional, poética ou como documentos para a ciência social. A noção de identidade construída ou não. Ser um pós-modernista avant La lettre – dúvida do autor. Nada de aprofundar elementos subjetivos como gênero, classe e sexualidade. Hoje, isso parece indissociável. Ir na contramão sem  pensar essas questões no lugar comum da clivagem do certo e do errado. A produção do autor não se resume a denunciar mazelas. No crisol das artes muitas temperadas sem faltar workshops de sensibilização e sugestões pedagógicas. Aqui a supremacia das vivências face ao bla,bla,blá cognitivo. O “Manjar” embala o que marca o tatear no mundo complexo do conhecimento. A educação e a política, hoje, se encontram numa berlinda. Coisa de uma república e democracia quase esfaceladas. Momento da radicalização direita-esquerda, em luta materializada. Prisões cada vez mais atulhadas de gente, crime organizado dentro e fora das grades, centração política em dinheiro e bens para parlamentares e empresários. A preocupação maior do autor é com a vivência no território da família e dos empregos, o sonho alimentado pelos livros e filmes, as exigências da anima no sexo aventureiro e na sensualidade das ruas, das classes e das escolas. Daí sempre o predomínio dos conceitos vivenciados. O teatro e suas peculiaridades dramáticas (ação e assunto). Em Filosofia sempre a busca de uma práxis. A contracultura em ebulição cognitiva, motor-agente de descobertas. O papel da religiosidade em que mortos falam e vivos encenam. Desconstruir estereótipos e condicionamentos vira meta existencial. As coisas, mais importantes do que as palavras, estas servindo para nomear o dito. Vivências vivem em camadas a serem desbravadas.   


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03/12/2018

O FUTURO É HOJE


Ter papel ativo em nossa história política. Com as redes sociais todos somos seres públicos.
O protagonismo está no exercício da cidadania, dando a  palavra sem fazer o oposto, não lavar as mãos com mau-caratismo...
Sempre apoiar pessoas e instituições que defendem direitos humanos. Quem tem direito tem deveres. Na dúvida, recorrer ao iluminismo (ideias de liberdade política e econômica).
Melhor do que atacar, diálogos esclarecedores em situações polarizadas. Reformas não bastam quando falta o mais amplo debate entre as forças envolvidas.
Saúde, Educação, Política e Tributação – temas pertinentes ao lado de tantos outros.
Servir à Constituição com impessoalidade. Interesses em jogo podem subverter graças a acessos privilegiados.
O cânone do jornalismo profissional deve ser respeitado. Cabe a ele descobrir, perceber, conhecer, esquadrinhar, sondar. “O bom político escrutina a alma do povo.”
A liberdade de expressão e de pensamento ajudam a manter sob controle tanto o poder do Estado como o de grupos circunstanciais.
Injustiças contra o indivíduo podem resultar de opiniões e sentimentos opressivos se não mais. No longo prazo, as melhores ideias triunfam sobre as piores.
A responsabilidade por fake news chama a atenção para a boçalidade de quem se utiliza de mentiras. É só se perceber como vítima nesse processo.
Não se informar nem se instruir com leituras e debates é atitude acomodada, ingênua ou de má intenção. Triste quando não se amplia o leque de ideias e não se zela pelos fatos.
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17/11/2018

A HORA “D”


Madrugada. Quinze para as quatro horas. Palavras mais simpáticas do que números. O desembarque das tropas chefiadas por Maria. Uma primeira vitória encaminhada. Antes, fase de tensões fisiológicas. Um país, cujo organismo foi travado. Soluções aparentes não tocaram na raiz dos males. Tentativas lícitas e ilícitas, subjetivas e objetivas, não deram certo. Ou, a crise de grandes dimensões acaba por contribuir no aclaramento da consciência para a doença sistêmica. Caos é a palavra a ser ouvida. Adormecer e sonhar. Maria pergunta: “E, você, não tem escrito?” Blogs esperando, mais de 14 mil visualizações. Respondo: “Falta de tesão”... O que atribuo ao capítulo recente das eleições. Um presidente populista autoritário vai ser empossado em janeiro próximo. Mas já começa a dar as cartas. O perigo de uma prisão de ventre irremovível está no retrocesso. A destacar: meio ambiente, segurança pública, agenda cultural. A bancada do boi, da bala e do Velho Testamento num Congresso de rentistas. Artefatos espoucam no sanitário da casa, ensaios a prenunciar tanques e canhões. Não se conhece direito nem as estatísticas de desemprego. O abdome intestinal não está bem. Vive-se na dependência de acordos orgânicos. Cérebro e intestino irmanados. Sem bravatas linha-dura, não militarizar o organismo. Ele não é uma pirâmide a se afogar em atoleiro. Estado Novo  e AI-5 que fiquem nas dobras do passado. Hoje, véspera da proclamação da República, lá pelas 21h, introduzo, com alguma dificuldade, no próprio reto, um remédio à base de ácido esteárico, hidróxido de sódio e cloreto de sódio. Às três horas e quarenta e cinco minutos, depois de paciente horizontalidade na cama, adormeci acreditando no fiel agente curador. O sono veio naturalmente, antes eu imaginando se o efeito corresponderia ao esperado. Não havia certeza com relação ao momento do desembarque. Vem a manhã da proclamação da República. Levanto com boa expectativa esperando que o eterno sol me ilumine. Notável tiroteio com balas  projetadas no bungee-jumping (ioiô intestinal). Com elas os meus preconceitos e o ardente desejo para que o presidente e sua equipe, cuja missão é limpar o cólon da nação, cumpram o próprio papel. Nada como finalizar este relato, às 5h24, de 15 de novembro de 2018. Peço que o amor nos rodeie, e que a luz interior guie nossos passos. Dia glorioso, aniversário de uma República a ser preservada assim como a democracia, desde os idos do fim da ditadura militar (1985).

24/10/2018

O SONHO DE BOZZO




Estado de angústia. O jeito é adormecer. Foi quando ocorreu o sonho de Bozzo. Hoje ele vive sob uma chuva de flores. A consagração popular dentro de um caos político de proporções assustadoras. No sonho, trevas. A elas, mistura de íntima inquietação, ao lado a figura de Aldo, olhar sereno, consolo para as almas crentes. 

- Aldo – exclamou Bozzo, entre ansioso e atormentado –, não acredito que a gente deva se curvar sob o jugo do Sistema político e social.

Bozzo enumera, ao longo da conversa, o que ele chama de “assalto” ao instituído pela tradição e que preserva a educação das famílias, a formação escolar, as regras de sobrevivência contra o crime, a sexualidade, o poder do Estado, como lidar com criminosos e as minorias depravadas e submissas em seus hábitos e costumes.
Não faltaram críticas aos discursos sobre proteção ambiental e à saúde dos cidadãos – estúpidos cuidados e restrições. O chamado golpe de 64 foi um movimento restaurador que praticou a tortura sim. Mas com toda a dignidade... O problema dela foi parar aí, não matar os criminosos. Teve outras complacências: com a homofobia, o sexismo e o racismo.  

- Bozzo. Como encarar tudo isso, na sua pressa exigida, a não ser guerreando com o mundo?
- É o que penso, seja o caso. As oportunidades estão aí.
Aldo insiste:
- Até que ponto se agrediria a democracia, os direitos humanos e as liberdades individuais? E o lado religioso e evangélico...
- Sou pelo “olho por olho, dente por dente” – o que da Bíblia mais tem a ver com a realidade.

Bozzo é pelo poder das armas. Bandido deve ser bandido morto; quem produz mais deve merecer o melhor trato; quem desvirtua o zelo pela tradição é inimigo.

- E o Novo Testamento com as lições de Jesus? Têm a ver com o amor entre as pessoas e o respeito ao meio ambiente.
- Isso produz efeitos nas pessoas mais ignorantes e desclassificadas. Ora, as reivindicações do nosso povo exigem um condutor enérgico e altivo. Principalmente numa situação tão delicada como as de hoje.

Aldo, olhar sereno, retruca:
- Sempre houve “salvadores da pátria” até com atitudes revolucionárias. O Messias, porém, veio efetuar a verdadeira revolução nos corações e nas almas.

Bozzo sorrindo algo irônico acrescenta:
- Poderemos esperar renovações, sem o concurso dos homens poderosos?
- E quem haverá mais poderoso do que Deus?
Face à invocação de Aldo, Bozzo morde os lábios e prossegue:
- Não concordo com os princípios de inação e creio que o Evangelho somente poderá vencer com os prepostos dos governos, autoridades administrativas. Elas comandam os destinos.
- Jesus nos esclareceu – já que você citou a Bíblia –, que o seu reino não é deste mundo. Jamais foi visto interessado em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida.
- Aldo, note bem: Jesus sempre honrou a Verdade e o Amor, mas só dele se abeiravam leprosos e cegos, pobres e ignorantes...
E imprimindo aos olhos inquietos um fulgor estranho, Bozzo impaciente:
- Ótimo ao lembrar Jesus... Não acredito que seus princípios e lições hoje se implantam em mentes e corações. Com brandura, o que ocorre é a fuga do Evangelho. A figura do Messias, tão deturpada, deve ser imposta às autoridades. Temos que multiplicar esforços a fim de que nossa posição de superioridade seja reconhecida em tempo oportuno.
Aldo, expõe com doce veemência:
- Bozzo, Bozzo!... Os poderosos do mundo são transitórios.
- Há militares e religiosos entre eles. Muitos ligados e outros que se juntam à política administrativa, até empreendedores nas  mais diversas áreas. Vamos buscar a conversão dos homens. 
- O Mestre asseverou que o maior na comunidade será sempre aquele que se fizer o menor de todos.
Bozzo lembra o que ouviu de um seu correligionário: A gente se acercando de um grupo de notáveis – pois ninguém sabe tudo – o caminho pode se tornar plano...

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O SONHO DE BOZZO 2
Aldo com serena arrogância:
- Hoje, entre admiração e interesse motivado pelo ódio ao Sistema, além de boa dose de frustrações com o Congresso dos homens, mais que aprovação inconteste pelas qualidades pessoais, você funciona como a pior das piores alternativas.
Bozzo excitado ao extremo:
- A figura do Messias deve ser imposta à “Corte”. O povo, tal a carência no atendimento das mais básicas necessidades, há tempo que o descartou. Necessário encarar isto. Temos de multiplicar esforços para que nossa posição de superioridade seja reconhecida. Sei que é um jogo, mas só assim venceremos. Farei o possível para estabelecer acordos, sem deixar de ser quem sou, pessoa com poucas qualidades para governar...
- Tal traço de humildade é até louvável... Mas quantas mentiras e descompassos não ocorrerão? Quem é manejado acaba mudando de credo.
- Estou preparado para o que der e vier. Sei que a imprensa costuma ser um problema. Conto menos com ela e mais com as redes sociais.
Aldo obtempera:
- Jamais se engana por todo o tempo. E o Mestre tem visão abrangente para sondar e reconhecer os corações. A toga dos juízes são roupagens para a Terra... E a superficialidade dos manipuladores encobre as misérias da inteligência e dos conhecimentos históricos e evangélicos.
- Meu destino é alcançar o poder – enfatiza Bozzo – , custe o que custar. A maioria se porá ao meu lado, pelo que represento de transformação. Por hora, vale promover até escândalos.
- Muitas vezes são necessários, mas ai de quem os provoca – acrescenta Aldo. Autoritários que chamam a ditadura de movimento, aprovam a tortura e encorajam execuções extrajudiciais, em última análise, matam a democracia.  
E continua:
Líderes populistas já se utilizaram de vassoura para varrer a corrupção; roupa de gari, como se estivessem com os pés no chão; prometiam acabar com os Marajás, além de fazer correr o sangue das ilicicitudes... Promessas não cumpridas, quando eleitos, sempre uma constante até o obscurantismo dos dias atuais.
Só pensando:
Bozzo acreditava que suas ideias eram novas, ou que pelo menos resgatavam tradições do ensinamento bíblico. Pelo apoio que recebia, e dos evidentes procedimentos de desumanização, como o assassinato de representantes de desafetos – partidos que se lhe opunham, gays, negros, índios, mulheres –, mantinha seu interesse por armas, militarização e milícias.
Lembra ocorrências:
“Bozzo, ele sim”, “a caça aos veados vai ser legalizada”, gritos aqui e ali. “Suástica não”, mas símbolo budista da paz – interpretação tendenciosa de um delegado, pela escoriação a canivete na pele de desafetos.
A Bozzo, com esclarecedora firmeza: Como llhe fica a consciência quando você difama opositores, mobiliza fanáticos, intoxica quem vai votar? Você, ajoelha diante das redes sociais sabendo que a cibertecnologia polui a política. Inclusive, não há memes inocentes, elas servem a propósitos de aliciamento. O humor irônico chega a tomar o papel cômodo de quem não quer pensar de forma responsável. Com os militares no poder, o enrustido carinho pelo fálico continua. O que acontece no mundo ricocheteia aqui.
Bozzo: - Precisamos da autoridade na política, de nacionalismo pátrio, e respeitar a tradição nos costumes. Não mais baderna e progressismo. A esquerda chega a ser mais autoritária do que a direita.
Aldo - Um perigo cortejar religiosos dinheiristas para angariar  votos. A alta hierarquia, seja do credo que for, engole sapos e silencia. Refugiados e imigrantes servem de pretexto para a xenofobia.
Bozzo enuncia:
- Os inimigos estão aí: petistas, sem-terra, sem-teto, ambientalistas, ativistas, quem fica de mimimi.
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Manhã de muito sol e ainda um frio da estação passada. Na véspera, em mãos, o manifesto “POR UMA FRENTE PROGRESSISTA  DO TAMANHO DO BRASIL”. Não me lembro de tê-lo assinado ao lado de mais de 22 mil pessoas. Se posso ainda assinar, assino agora. Vibro com os nomes de pessoas que sempre admirei pela coragem de dizer o que sentem e pensam. Gente que não separa o coração das ideias. Intelectuais, artistas, escritores, políticos, ex-ministros, comerciantes, jornalistas, cineastas, advogados, empresários, economistas, educadores, músicos, filósofos, editores, compositores, curadores, ativistas, etc., etc.
Publicação em – Folha de S.Paulo, sábado, 20 de  outubro de 2018 –, como INFORME PUBLICITÁRIO PELA DEMOCRACIA. 
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Bozzo recorda seu empenho ao juntar forças com economistas, gestores empresariais, políticos e militares. Meditava na execução de seus desígnios. A madrugada o encontrou decidido na embriaguez do que pretendia. Na troca de reconhecida liderança ele contaria com jovens eleitores, políticos e seus currais, aqueles de suas fileiras de desaprovação. Unia-se a desorientados face às lições da história, fanáticos frustrados de todas as classes sociais, e os mais revoltados com o Sistema. Sentia-se apoiado como o representante oficial do país diante do mundo. Órbita artificial cuidada com raro leso de insinuações e mentiras. Praticamente aboliu os marqueteiros profissionais. Entre a maldade e a violência, o Mestre parecia demasiado humilde e generoso para vencer sozinho. Bozzo ainda se considerava, tendo às mãos autoridades e privilégios políticos, capaz de satisfazer suas justas ambições para a vitória do “olho por olho, dente por dente”. Recebeu relevantes promessas dos que viam nele trampolim para a conquista de melhor posição na cúpula do poder. E para o povo simbolizava a salvação no rito de passagem anunciado como merecida premiação. Quem não quer emprego e cargos para satisfazer interesses de sobrevivência e autorrealização? É como se o algorrítmo da verdade estivesse no desabrochar de nova alvorada.
TEMPOS DEPOIS
O sistema democrático foi ainda mais humilhado e escarnecido, conduzido à cruz da ignomínia, sob vilipêndios e flagelações.       
No seio de Bozzo ainda havia suposições a declarar. Quem antes o apoiava só queria mais poder. Os mais ricos e poderosos agiam como rentistas (acumuladores de dinheiro e bens materiais). Agora desejavam o que ele abraçara, sorrindo com sarcasmo. Bozzo reconheceu a falibilidade das promessas humanas. Ele, que tanto prometera, se via no espelho tosco da própria alma. Companheiros de fé, encontrou-os vencidos, em cada olhar a exprobração silenciosa e dolorida. Até os mais íntimos o tinham como um rebento desprezível. Atroz remorso lhe pungia a consciência, lamentando por não aceitar as advertências do sincero amigo Aldo Costamares.
Nessa hora, com a perda da democracia, o céu da cidade se cobriu de nuvens escuras e borrascosas. Bozzo peregrinou em derredor de lembranças malditas, alimentando o desejo de desertar do mundo – suprema traição aos compromissos mais sagrados da própria vida. Terrível relampejar rasgava o firmamento. A Terra da nação era agora vilipendiada pela morte do melhor regime, entre os piores – a democracia. É como se o Mestre dissesse: Ninguém pode melhorar senão por mim!
(Duas partes postadas no ipansotera.blogspot.com, 14.110 visualizações antes desta publicação. Foi também para o Facebook / 21-10-2018.)

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08/10/2018

AMEAÇA



Triste que eleitores dependam do tom e das estratégias políticas e dos marqueteiros para fazer suas escolhas. Isso tem a ver com falta de informações e conhecimentos com base real. Pode ser também agir no impulso, ou com ódio e frustração. Descaso e acomodação entram nesse caso. O que se acarreta de agravamento para a crise política atual não tem tamanho. Reveja os próprios medos e interesses pessoais. Em época de Internet (Google) pesquise ou peça ajuda. Com um simples toque aprenda sobre a ameaça fascista. Mentiras, perseguições de opositores, assassinatos, militarização até das crianças, ódio contra minorias religiosas, étnicas, ideológicas, gênero (homofobia), o machismo contra mulheres, o evangelho do “olho por olho, dente por dente” (nada cristão), xenofobia... (Alguns dos termos empregados você encontra em dicionários de bolso ou no Google.) Isto deve pingar como gota d’água na cabeça: Direitos Humanos e Liberdades Individuais são como o indispensável feijão com arroz. E para finalizar passo a palavra ao escritor Cristovão Tezza: “Em cada gesto e palavra, no primarismo intelectual, no culto da violência, na ignorância histórica, no permanente desconforto com a diferença na estupidez verbal como método, no ódio aos fatos e à imprensa livre, no desprezo sarcástico a todas as formas de representação institucional, no orgulho arrogante da barbárie e no despreparo brutal, em tudo revelam-se os sinais inconfundíveis da implosão democrática que ele representa.” Destaquei o texto do artigo “O eterno retorno”, Folha, 7 de outubro de 2018. Tremula a bandeira do endereçado: Bolsonaro e Doria. Quem os acompanha: “Vade retro, Satanás!”  


06/10/2018

LUA, ESTRELAS E FLORES

Na véspera da  eleição de 2018 vejo o Brasil passando por um dos seus mais sérios momentos. Desde o golpe de 64 que implantou a ditadura militar com suas perseguições, assassinatos e tortura estamos às portas de um novo Ai 5 (aquele decreto que desencadeou, fortalecendo os crimes). Extremos de Esquerda e Direita, além do comodismo cínico do Centro, são abomináveis. O populismo autoritário, venha de onde for, funciona como peste. Um Governo concentrador de poder é também amante do rentismo, estimulando a desigualdade entre ricos e pobres. Golpes ditatoriais produzem corrupção e ilicitudes contra os Direitos Humanos e as liberdades individuais.
Hoje, pela manhã, aceitei o convite da Maria para ir ver flores desabrochando com detalhes de linhas e cores em belos designs. Espontânea e sábia natureza. Ninguém  impondo a marcha gloriosa. Na Wikipédia leio: sobre design – idealização, criação, desenvolvimento, configuração, concepção, elaboração e especificação. As lições, hoje à mão, com a facilidade de um toque digital, deveriam ser obtidas antes de importantes decisões, como agora antes de votar. 
Minha sugestão é: clique no Google a palavra Fascismo. Ninguém precisa ser historiador ou ter formação universitária para saber o que significa fascismo na Itália e nazismo na Alemanha. Tem a ver com autoritarismo populista na Política. Dizer e desdizer, mentir e desmentir; “ser contra” pode mudar de tom mas é sempre “ser contra”. Tão simples, né? 
Gestos se fazem até mais verdadeiros do que palavras. Você dizer insultos ou palavras afrontosas, ainda acompanhadas da imagem corporal, não correspondem apenas ao jeito da pessoa. Num político ou candidato a cargos públicos (figuras de representatividade social) revelam valores existenciais, conceitos sobre o mundo e os indivíduos. Têm a ver com caráter, o mais profundo da personalidade. Incluem manifestações a se concretizar sobre pessoas, classes sociais, minorias étnicas, de gênero, dispositivos de segurança, aspectos educacionais referentes a família e a escola. Sobre como encarar a  imprensa investigativa, a justiça dos tribunais, atos de inclusão e separação, liberdade de expressão, pesquisa científica, arte e moda. 
Estar preparado para um cargo público exige abertura e conhecimentos em todas essas áreas tão vitais como a Economia e empregos com justa remuneração. Não há minorias desprezíveis e despreparadas. Cabe ao Estado e a indivíduos empreendedores e protagônicos a ingente tarefa de prover necessidades básicas de sobrevivência e autorrealização. 
Ao lado de Lua, estrelas, flores, somos responsáveis pelo design da vida nossa e comunitária.

25/08/2018

23/08/2018

O DESEJO



Sentimos e criamos uma realidade que nos parece coesa, coerente. Mas ela é disparatada: inclui inverdades, utopias, desastres, o ilícito, coisas insanas ou inesperadas. Faz parte da experiência política, entra no cotidiano das trocas sociais. A essência do homem é uma falta, aquilo que não se possui. Desejo é o desejo do outro. É o que o outro tem mas que eu não quero. Somos repetitivos, já que cometemos sempre os mesmos erros. Na linguagem comum, o desejo não se inscreve totalmente. Não se imaginar senhor do próprio destino, o que implica compreender a dinâmica do estado desejante. Se achar que os sentidos fazem sentido, o caminho é outro. A palavra fica com o inconsciente, senhor da linguagem. Como explicitar a verdade do desejo? Qual a raiz do que se deseja? Discursos se apropriam das aspirações humanas. Dizem o que se quer desejar. Na política, a fala de quem desloca desejos para os desejos de outrem. Esquecer do próprio querer é entregar-se a modos pré-fabricados (anúncios publicitários, como dia disto ou  daquilo; metas, objetivos, funções). É quando se esquece o que está mais enraizado, e atende melhor às nossas necessidades. Mecanismos de atitudes e comportamentos já estão aí na praça do mercado. Não permanecer à margem do que é mais importante e essencial.

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18/08/2018



AGIR OU INTUIR

A realidade não é o que se me apresenta aos sentidos. Tudo problemático e falho. O que chamo de objetivo, claro, evidente, é o que me impuseram como real. Posso, ao enfrentar a angústia, subtrair algo daí. O que chamam de “devaneio” do artista é o que corresponde a esse estado. Faz parte de idealizações imaginativas no ato tido como criador, processo associativo de figuras, cores e formas. Linhas que, muitas vezes, o autor nem sabe como as colocou na composição. Uma superfície ou mancha chega a ter papel decisivo no equilíbrio dos elementos enquadrados. Para o artista, a realidade não passa de uma coisa una. Por que não a duplicar para que o entendimento aconteça? Talvez a gente se perca aí... Na posição do artista, mais real é a família ou o trabalho? A acumulação de bens ou o desprezo por posses? A união cartorial ou o simples acasalamento? Parecer isto ou aquilo? O ato ajuda a lidar com essa angústia. O artista costuma ter o impulso da intuição ao encontrar a porta aberta. Agir ou intuir com o real? Literatura e poesia, um caminho. É quando se poderá atingir a raiz dos próprios desejos. Na atividade literária ou artística, a expressão utilizada não exige ser compreendida. O surrealismo, por exemplo, age como forma de vida. Entra no cotidiano, na ética, na estética, na filosofia, na ciência. Sentimos a dificuldade de dizer o que queremos e de ouvir o que não queremos.

(Miniatura dos meus cajados. Obra exposta no Centro de Convenções Victor Brecheret, Atibaia. Mostra do Olho Latino.)



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AGIR OU INTUIR

A realidade não é o que se me apresenta aos sentidos. Tudo problemático e falho. O que chamo de objetivo, claro, evidente, é o que me impuseram como real. Posso, ao enfrentar a angústia, subtrair algo daí. O que chamam de “devaneio” do artista é o que corresponde a esse estado. Faz parte de idealizações imaginativas no ato tido como criador, processo associativo de figuras, cores e formas. Linhas que, muitas vezes, o autor nem sabe como as colocou na composição. Uma superfície ou mancha chega a ter papel decisivo no equilíbrio dos elementos enquadrados. Para o artista, a realidade não passa de uma coisa una. Por que não a duplicar para que o entendimento aconteça? Talvez a gente se perca aí... Na posição do artista, mais real é a família ou o trabalho? A acumulação de bens ou o desprezo por posses? A união cartorial ou o simples acasalamento? Parecer isto ou aquilo? O ato ajuda a lidar com essa angústia. O artista costuma ter o impulso da intuição ao encontrar a porta aberta. Agir ou intuir com o real? Literatura e poesia, um caminho. É quando se poderá atingir a raiz dos próprios desejos. Na atividade literária ou artística, a expressão utilizada não exige ser compreendida. O surrealismo, por exemplo, age como forma de vida. Entra no cotidiano, na ética, na estética, na filosofia, na ciência. Sentimos a dificuldade de dizer o que queremos e de ouvir o que não queremos.

(Miniatura dos meus cajados. Obra exposta no Centro de Convenções Victor Brecheret, Atibaia. Mostra do Olho Latino.)


25/07/2018

MAIS FORTE DO QUE O ÓDIO


Nas famílias, por mais felizes que sejam ressentimentos recalcados podem emergir quando menos se espera. Amantes eternos chegam a virar inimigos eternos?  Sobre o sentido de “eternidade”, diz o filósofo pré-socrático Heráclito:  “o mundo era desde sempre, é e será fogo sempre vivo que se acende a intervalos e a intervalos se apaga”. Tempo de namoro, casamento, filhos... Num futuro próximo ou distante pode ocorrer a disputa pela custódia dos filhos. Sendo contra ou pelo medo do pai, por ofender de alguma forma a mãe, acontece de os filhos não quererem partilhar a existência com ele. O pai não se conforma. Acusa a mãe de manipulações. A separação tende a se tornar litigiosa. É quando o caldo se derrama, embora possa ser recolhido. A família do marido o defende; o mesmo acontece com os parentes da esposa. Qualquer argumento parece válido nessa hora. Quem ganha ou perde, área judicial. Rejeitado pela mulher e pelos filhos, o pai se transforma em lobo. É o início da sua desintegração social. O ódio pela ex-mulher pode suplantar o amor pelos filhos. Nessa situação de brutalidade instintiva chega a aparecer nua e crua a condição humana. Como renunciar às próprias vaidades e frustrações? Uma liberdade radical e mortal existe na selva, onde “o homem é o lobo do homem”. Necessário para que haja civilização, em suma, que o homem renuncie a ganhos imediatos em nome de um bem maior: a paz e a segurança possíveis para todos. Sem esse sacrifício não teríamos saído das cavernas. Estaríamos distantes de uma cultura cívica exigível pela experiência cooperativa e solidária. Sabemos como é difícil abrir mão dos interesses imediatos e das mínimas conveniências momentâneas. O sentimento do “nós” (reciprocidade) e o diálogo (sem estrito confronto) existem para todos – família, políticos, cidadãos, como vivência irremediável. Trata-se realmente de um sacrifício? E aqui nem se falou no perdoar e no amor ao próximo como a si mesmo. Nada é mais forte do que o amor.

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21/07/2018

MANJAR E IPANSOTERA



Chamar certas obras de livros é dizer muito pouco. Às vezes são projetos de dezenas de anos. Caso do Manjar Branco no Asfalto que chamo de romance mas não passa de obra ambiciosa. Recentemente devo editar centenas de tuítes com o nome Ipansotera. Os tuítes ou hipotiposes (outro nome) andam há anos pela internet. Continuo produzindo textos avulsos, fragmentos, ao sabor de momentos mesclados num só fluxo. Os livros crescem, passagens são excluídas, enquanto outras se incluem. Sem enredo e cronologia, a ordem correta é fora de ordem. No caso das hipotiposes cada edição é um livro diferente. Quais páginas incluir e em que ordem? Pensando também nos meus Cadernos do Beiral, em que há textos manuscritos a decifrar, caligrafia em caixa alta, dificuldades se repetem. Que tal páginas avulsas em recipientes adequados, o leitor montando os próprios conjuntos? Livro inacabado? Mandálico, mutante, a critério de quem lê. Obra que renasce e se refaz, segundo o gosto do interlocutor. Questões autopropostas, um diário íntimo, reflexões filosóficas, prosa poética, orientação existencial, consciência fragmentada em palavras e imagens . Não há definições para esgotar o definido. De raspão, diria que ipansotera tem a ver com alegria e tristeza da vida; hipotipose sugere rascunho, esboço.

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19/07/2018

A PERCEPÇÃO PRIMORDIAL



A Programática de G.W.G. Moraes buscou em obras da antiguidade clássica (biblioteca digna desse nome), noções que dão destaque à dicotomia para a compreensão da multiplicidade do real. Entram aqui Ocidente e Oriente. Platão aceitava a prevalência da dualidade, também enfatizada por Nietzsche e Merleau-Ponty. A vida caminha através de paradoxos, opostos interativos, pensamento de Jung que postulava sobre a existência de dois polos que se defrontam. A interrelação entre eles, embora antagonistas, contribui para o equilíbrio psíquico. Como não há brilho inteligente sem sombras, não basta esta dualidade. Picasso demonstra, da Renascensa ao Cubismo, como o elemento “três” é importante. Um tripé é melhor base para manter a máquina na vertical. “Dois” para sustentação exigem apoio que também provém de um motor em movimento. Então, resta discernir na escolha das unidades, sob pena de desvario e insegurança. Firmeza para baixo e largueza de sentimentos e ideias. A Programática aceitaria o elemento “três"? Caso contrário, ou se acerta ou erra. A dúvida, naturalmente, é algo menos autoritário. Por outro lado, no sistema de Moraes a intuição mandálica tinha sensível destaque. Compensaria a radical dicotomia. Pergunto:  como ficam as graduações de luz e sombra, de superfícies com relação a linhas e pontos? Risco de se cair num maniqueísmo estético, como se sujeito e objeto, eu e outro existissem separados. A própria clivagem do certo e do errado é discutível na medida em que exalta a percepção habitual, objetiva e cristalizada. Em Leonardo da Vinci a percepção é mais aberta e mais ampla. Confiança maior nas sombras do que nas linhas de contorno, para o entendimento. Conteúdos, relacionados a formas, ideias, teorias.  A natureza em si – independentemente da maneira como nossos olhos a concebem – não possui limites precisos. Pontos e linhas são constructos matemáticos, sem presença física. Algo imaginário, desprovido de matéria e substância, existe como projeção. Não ocupa espaço. Luz e sombra são o que melhor representa a forma e o volume dos objetos e seres. O humano entra aqui. A ver com isso o sfumato, técnica que, em Leonardo, representa a realidade com mais precisão. A Mona Lisa, bom exemplo. Nas relações interpessoais penso na Gestalt, comparando-a à percepção que não se perde em nomes, medidas e detalhes, preferindo o mais  totalizante. Ninguém se conhece, e muito menos sabemos tudo sobre pessoas animais e coisas. Do geral se chega ao particular. Leonardo, ao borrar os limites entre arte e ciência, realidade e ficção, experiência e mistério, pretendia chegar ao essencial do visível.

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21/06/2018

LUZ E SOMBRA



O nome que se dá a uma obra...  Qual a relação com o consciente do autor? Muitas vezes só existem sombras, quando há luz. Diferentes tipos de luz geram diferentes tipos de sombras. O título de um livro meu, publicado em agosto de 2007, pela editora Garatuja (Atibaia, SP) – Ecos e Sombras. Cheguei a pesquisar sobre  razões  do nome dado. Sombras, em Jung possui aspectos negativos e positivos. “O homem inconsciente, precisamente a sombra, não é composto apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas também de um certo número de boas qualidades, instintos normais, reações apropriadas, percepções realistas, impulsos criadores, etc.” Sobre motivos mais ou menos conscientes ao atribuir o nome do que escrevi, Ecos surge como expediente de abertura na modelagem de pensamentos. . . Aqui já me sinto à luz da importante obra de Walter Isaacson, Leonardo Da Vinci. Os efeitos de luz e sombra nos desenhos e pinturas do artista são objeto na interação entre arte e ciência. No que ele observava e praticava, sombras eram o segredo para modelar objetos tridimensionais. O humano, a natureza e o divino consistiam em importante tripé, base de sua teoria. Linhas são conceitos surrados aprendidos ao longo da vida. Estão no plano circunstancial, aí nos prendendo. Têm a ver com o costume de estar sempre dando nome às coisas. Não às coisas em si mesmas, mas nas aparências. O dito de Nietzsche de que não há fatos, só versões, me vem a propósito. Linhas, muito menos nos servem para alcançar a transcendência.  Ecos e sombras, luz e sombras. É com a luz que o espírito se fortalece no tridimensional. Só na polaridade binária chega-se a perder a dimensão mais estética do sentimento e da arte. Sombras reproduzidas de forma adequada são de suma relevância para que se alcance  outras perspectivas fora do trivial. Ao depender de linhas, espíritos em corpos sólidos e opacos ficam mal definidos. Essências espirituais podem ser melhor percebidas através de sombras. Assim surge uma ruptura com julgamento e práticas comuns. Insisto que linhas possuem nomes, nos afastando de conteúdos mais essenciais.  Para o entendimento, ou relações de autenticidade, face a contornos temos as sombras. Linhas são explicativas. Na ótica do cineasta Fellini, explicar é uma forma de fascismo. Linhas não participam de maneira mais intensa de conteúdos a serem explorados. Não adentram os fenômenos, daí a observação partir para o que se explica. Vira instrumento de poder, não de compreensão. Sombras possuem maior penetração no que se deseja entender e ainda revelam sutilezas. Observar conteúdos através de linhas, o mesmo que ter um véu ou um painel entre a coisa e o que representa ou significa. Tem mais a ver com a memória, parte artificial da inteligência. Com o tempo resta a essa parte da mente selecionar até o exagero o que “deseja” guardar. Num certo sentido, ainda bem, já que não pretendemos ser um baú de quinquilharias. Pena que tanta coisa boa também fica degradada. Sombras não admitem limites precisos. Pouco servem a quem pretende conservar e aumentar o próprio poder. Através de linhas imaginamos saber o que não sabemos. Linhas pouco auxiliam na ampliação da consciência num sentido mais transcendental. Nem para compreender evidências existenciais. Um espírito, cujá luz reflete vários ângulos, produz sombras de forma inteligente a distinguir importantes caracteres. Almas carregam forças unificadoras como guias. Tons de sombras e suas graduações como nas diversas categorias de espíritos. No meu livro, a variedade de sombras denota a variedade  de influências recebidas dos pensadores consultados. Influxo muitas vezes no acaso do caso. Há o que é primário, derivado, e resulta da luz ambiente;  ocorre o tingido  sutilmente pelo que se reflete (ecos), o composto (fontes de luz); o criado pela luz solar ou da alvorada, o filtrado por transparências e muitas outras variações. Existe um ponto em que a luz bate, sendo refletida de volta à fonte. Mistura com a sombra original... Ambas se juntam de alguma forma. A análise da cultura alimenta a literatura, assim como a literatura alimenta a análise da cultura.       

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03/06/2018

FUNGOS NA ALMA


Você é uma pessoa para o mundo. O mundo sou eu. Imaginário, meu abrangente; o real, agente. Sou um disfórico – ansioso, inquieto. Presença e presunção para admiti-lo. Trabalho e criação... O que prevalece? Vivemos de palavras. Palavras carregam imagens. Palavras e imagens constituem linguagens. Linguagens têm a ver com ideologias. Quer a gente admita ou não sempre servimos a paradigmas da esquerda ou da direita. Ser do Centro é piada. Por mais que resistamos a concebê-lo, isso é rentismo (ambição por ter cada vez mais). Interesses os mais pessoais participam do modus vivendi. Vantagens pessoais e sociais, humanitários ou despóticos, atuam segundo a linguagem disponível no momento. Palavras como “greve” e “locaute”, respectivamente trabalhadores que cruzam os braços e patrões que disputam com sindicatos e governo impondo paralizações, produzem impacto. “Greve”, excelente saúde no mundo das palavras; “locaute”, no almoxarifado, sacudindo poeira. Sérgio Rodrigues, um mestre da língua, fala sobre o papel da linguagem (Folha, 31 de maio último – “Brasil faz a crise entrar em crise”). No artigo: “Toda crise política e social é uma crise de linguagem.” Desde a semana passada é o que acontece no país. Continua Sérgio: “Mistura de greve legítima com locaute criminoso? Salada mista de insatisfações difusas como as que explodiram em 2013?” Na crise de linguagem ele alerta: “novas formulações ainda precisam surgir para dar conta de papalvos [indivíduo simplório, tolo] que pedem de joelhos ‘intervenção militar’ (olha a crise da linguagem de novo, tentando nos vender esse eufemismo grosseiro para ‘golpe’)“. Ele conclui, assinalando que “a crise da linguagem mora no coração de toda crise”.  Pensando nos problemas de relacionamento com o mundo e as pessoas faço analogias e encaro similitudes. Diria que a crise da linguagem pelo menos se acoberta em cada indivíduo. Ao se libertar de fungos oportunistas se espalha sobre a nossa carcaça e a dos políticos. Eis o que prevalece.

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02/06/2018

UM POUCO DE MIM




Matéria na linguagem do “redigir é reduzir” (G.W.G. Moraes), forma atual dos tuítes (que chamo também de hipotiposes), itens com até 140 caracteres para o Twitter e Facebook. A partir  de hoje (29/05/2018) transformo os tuítes em texto corrido para as edições do Jornal Livre. Colunistas: Euclides Sandoval, Ascânio Betarello e Saint Denis. Os heterônimos  do meu saudoso irmão foram mantidos desde a desencarnação do autor. Denizar Sandoval e Moraes, ambos no Planeta Espiritual, continuam a nos iluminar. Na vida terrena foram mestres inesquecíveis. No site Twitter as hipotiposes somam cerca de 6.350. Depois de um certo tempo, passaram a ser automaticamente transmutadas para o Facebook. Neófito na lida com mecanismos da informática só obtenho “passagens” no Facebook – 60 acompanhantes mais ou menos fiéis. Espero logo aprender a fazer um check-up no Twitter. Maior atenção não tenho dado quanto a expectativas de retorno com feedback. O fato de expor convicções num espectro tão amplo (Informática) é o que me anima. A quem estiver interessado em conhecer o autor dessa azáfama sugiro diminuir a velocidade das buscas digitais. Meus livros Ecos  e Sombras, Cadernos do Beiral. Cinema com Pipoca, Ninho de Silêncio (e-book) estão aí para consulta.  Outros originais espero ir tirando da gaveta para publicação. Dos blogs que mantenho, o ipansotera.blogspot.com está com 506 postagens, 485 publicadas. É um dos mais ativados. Manjar Branco no Asfalto, cerca de 30 anos passados, está em fase final de revisão. Entre fotos, pinturas, esculturas,  gravuras, colagens, cadernos (cerca de 12 mil páginas), textos dramáticos e realizações teatrais (como autor e encenador), o rio se imagina correndo para o mar.    

03/05/2018

NADA CHEIO DE TUDO


E o Manjar, como está e como fica? Ele em gavetas, caixas, ou sobre a mesa. Sono letárgico como o do autor. Não mais tempo para uma amante culta e atenciosa, ajudando a enfrentar percalços. Mulher, por mais que a amemos oscila como terror divino cobrador e a mãe zeloza que já se foi. Sobra-nos a queixa, último alento de uma existência plena de inércia e confusão. Um dia, intelectual e literato, multiartista para um nada cheio de tudo. Imagens do quê? À espera do rápido instante mandálico e programático. Boas ondas e boas vibrações aonde te escondes? Não assalariado, sem quem nos paga, hora dos remédios:  pressão arterial, colesterol, infecção ocular, regulador intestinal, vitamina D... E o que mais nos aguarda, fantasmas de esquinas traiçoeiras. Fuga dos ritos e dos algoritmos de Euclides. Antes, pedagogo apaixonado; hoje, octogenário que se irrita com a correria e gritaria das crianças (8 bisnetos). Tudo muda, enquanto ficamos cada vez mais surdos e mudos. Ah... Pelo menos de vez em quando um grito primal terapêutico. Ninguém acorda face ao desprezível senhor das elucubrações. Frágil mesmo é o pensamento. Nem dormir tranquilo como um respeitável hóspede. Que não tranque as portas, nem dirija automóvel em estradas. Qual a próxima besteira? Isto aqui é um desabafo para ouvidos moucos. Resta a leitura cotidiana de intelectuais pessimistas e indigestos, postar mais um dos milhares de aforismos já no Twitter. Muitos também escorregando para o Facebook. Textos maiores – talvez este também – no impansotera.blogspot.com. Por vezes, algo que se sente profundo mas obscuro para leitores menos dispostos a enfrentar abstrações. 

21/04/2018

TRAUMAS E DECISÕES



Não há fantasmas no dia claro, a não ser os que politizam os poderes que deveriam ser os mais impolutos (Executivo, Legislativo e Judiciário). A Procuradoria Geral da República  impulsiona o instituto de delações e prisões de indiciados, remédio amargo do momento para a endêmica corrupção que atinge a política e certas empresas. Até aulas de como delatar teriam ocorrido. No lamaçal do furacão criminoso poucos se salvam. Embora salpicado de lama, algumas figuras ainda se preservam contra a máquina devastadora dos costumes e bens públicos. Fala-se em reforma política. A lentidão da justiça criminal e a inexistência de critérios uniformes das polícias respondem pela alta taxa de homicídios, presídios superlotados e a ascensão da violência. Que os esforços sejam ingentes afim de arredar o  favorecimento a uma minoria com altos salários, aposentadorias e assistência social, valores que crescem sempre acima do PIB. Políticos e partidos, centrados no próprio umbigo, não sentam para apresentar diagnósticos e discutir propostas que contribuam para a solução do triste quadro que se tem de suportar. Que o controle na busca de fatos, instituições interagindo sob a égide constitucional, daqui para a frente, que seja diuturno. Reconstruir a democracia, tornando-a mais participativa ou a barbárie.
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19/04/2018

NAVEGANDO



Indo para o tempo pessoal, maneira de postar sem cravar nas redes sociais, processo autocompreensivo. Terreno mais seguro para se pisar. Espaço de desejos e constatações. Cheguei à noite, vindo de Atibaia, trazido. Casa da filha Paula. Maria também veio, em outro carro. André, marido de minha neta, no volante, eu, o Tito (bisneto) na cadeirinha. Maria no outro automóvel, Gabi dirigindo, a Mel (outra bisneta), atrás. Chegamos  praticamente juntos, sem combinar. À noite, quase nada conversei – aquele extremo da bi-lateralidade. Claro que não queria sair de casa. Vou experimentando a atitude zen de nem querer pensar. Exercício de humildade vale se o amor bafeja. Não ficar avaliando as coisas e os outros. Eu queria ir para a costumeira soneca depois do almoço. Um pouco de percussão... Quem despreza sambinha, tocado e cantado, num cavaco?! Quando acontece de cochilar, vou  dormir. Antes de desligar costuma ocorrer a habitual leitura de algumas páginas do Inácio Ferreira. Já li e reli livros desse autor. Sempre sensações novas. Parece saudosa imaginação. Mundo espiritual concreto como em nossa crosta. Pouco doutrinário, para ser, no desejo do psiquiatra Inácio, nada doutrinário. O mundo da outra dimensão, certo que mais sutil, fora das ortodoxias – não é espírita. Pode  abranger todos os credos. Cada um na sua morada planetária. Certo que a mais próxima possui agrupamentos e espíritos de todas as éticas e morais. Daí a sensação de que continuamos na Terra. A morte não é a glória, nem a desdita. Não passa de água com suas quedas e turbulências de rio que vai para o mar. A gente se apega ao cotidiano, pensando que a vida se resume em pesos e contrapesos, vitória e derrota, ritos e delitos. Na simbologia das igrejas, religiões, artes temos o liga/desliga ou empurra e agarra. A espada de Dâmocles nos manda para a outra casa do Pai, onde há muitas moradas. Vamos voltar a Campinas, onde a Paula está morando. Minha filha na missão de assistir quem precisa de cuidados e oportunidades melhores para a travessia terrena. João Jr.,  aos setenta e poucos, com seu “cachorrinho” (sacola de urina) para esvaziar a bexiga preguiçosa. Com o balde, ajudado, pra lá e pra cá. Saúde precária por condições menos estáveis e controláveis. Pego meu notebook, num canto de silêncio, revendo o que sobra na memória. Forma de esvaziar conteúdos gastos. Cedo, lá pelas 8 horas, antes de levantar – sempre a Maria preocupada com logística – acorda o paspalho aqui. Faço a minha massagem habitual, no baixo ventre. Dá para sentir o residual que está se formando. Vou ao banheiro, cumpro tarefas diárias, fisiológicas e de higiene, belo banho com um chuveiro fino e forte. Ainda sob a água cumpro o que o corpo exige de alongamentos. Um kit que sigo desde longa data. Arrumo a cama (velho hábito). Desço para fazer o café (adoro escadas, ótimas para a flexão das pernas, evitando varizes). Tomo um suco verde, já preparado (tratamento vip) e o meu remédio para pressão alta. Antes, ao levantar, é hora do Lycopodium, em jejum, ótimo para a a autoconfiança.
                                               (Sábado, 14/10/17 – Campinas. No blogspot.com, quinta-feira, 19/4/18)
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18/04/2018

O MANJAR, PRÓLOGO ETERNO



Ainda encontro amigos, de tempos idos, que me perguntam sobre o “Manjar branco no asfalto”. O “Manjar”, primaveras sem conta. Quinhentas páginas estrebucham num sumidouro. Necessário situação envolvente para despertá-lo. Enquanto isso vai se escrevendo o prólogo. O autor, titubeante. O livro, vivência dos  dia a dia. Atividades domésticas, o profissional improvisado, ora professor e facilitador de grupos, ora instrutor de tênis, ora técnico dramático em hospital psiquiátrico, ora criador de grupos de teatro, autor de adaptações, encenador e intérprete; questões de desrespeito aos  modos social-correto – logística familiar feminina... As durações aqui são elásticas, anos mais, anos menos, sempre pedagogo. Muita coisa procrastinada. Escrever todos os dias. A função de blogueiro assumida é boa desculpa para não pegar o “Manjar”. Tudo resume a tentativa de escrever. O  mundo não se renova segundo nosso tempo de estreia. A linguagem do “redigir é reduzir” (G.W.G. Moraes), hoje na forma de tuítes, motiva. “Manjar” é testemunho de uma época, familiar e social. Época de desejos mais do que de resultados produtivos. No tuitar, contribuição no ensaio de esquemas, reflexões, posições críticas e filosóficas. Redistribuição do que se vai assimilando. Emoção e razões, juntas. Ocorrem hipotiposes – conceitos de aparência ou não doutrinários. Na articulação generalizada e superficial pode-se notar clara intenção especulativa. Realidade e ficção, interagindo no presentemente atual. Ao se aspirar um esboço mais conclusivo, o interlocutor que se estabeleça. A autoria  como primeiro alvo. “Você se contradiz”, disseram. Resposta: “Por que não?” Hipotiposes não passam de rascunho de ideias a abalar as do crediário da razão.  A resistirem, páginas de um original em circunferência, acomodado.  O romance começou faz mais de duas décadas. Efetivo no início, a compensar fase de convalescença em que a pretensão era acatar a convivência com dores. Prolongada reflexão sobre o acontecido – desastre automobilístico em que quase se perde um braço. Hoje, o “Manjar”pode transformar-se em póstumo livro “cult”. Longo prólogo, até lá. Partes do prefácio em cadernos e blogs. Sugestões de técnicas literárias sorvidas aqui e ali. Mexer na coisa meio sumida, um possível no que é tão datado? Correções ao dorminhoco, grande em tamanho, incluindo o complemento de tuítes a respeito da  inédita corrupção na política atual . Livro não se corrige, abandona. Achar preciso mais espaço e tranquilidade para escrever, condição, sem a qual não se retomaria o “Manjar”. A atitude demonstra não aceite ao vivido tridimensional . Não se caminha em superfície plana e retilínea. O realizado  em artes visuais e literatura sobrepõe esfera e  quadrado. Os espaços são curvos, não se muda de  lugar em linha reta. Como nos encaixamos no mundo? Por trás das espirais, qual a matemática? Não gostar de comportamentos em massa, nem de ficar atacando este ou aquele, o que contraria mudos desejos (pelo menos mudos). O homem não é estável, como todo organismo vivo. Longe a condição dos quimicamente iguais. Cadáveres? Aliás, nem estes “vivem” na imobilidade. Ficar longe do assunto politiquice, quando somos também responsáveis pelo que acontece na sociedade, leva a ir atrás da vasta rede de relações – a “teia da vida”. Para compreendê-la não bastam “porquês”. Estruturas se mostram através do “como”.  Investigação quanto a propósitos, princípios, artes e ciências, humanidades e tecnologias. As obras da natureza, interligadas, interagem. Formam uma unidade multifacetada, plena de padrões a serem reconhecidos. Não adianta pretender estar num patamar inconsútil, com metas de uniformidade que se acredita exequíveis, sob um poder absoluto a respeito de bens e indivíduos. A Terra não é plana. Estamos na condição do homem vitruviano de Leonardo da Vinci. Autocomplacência para elucubrar num jogo intuitivo e racional.

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